terça-feira, 8 de abril de 2014

TRÂNSITO E SOCIEDADE


TRÂNSITO E SOCIEDADE


Desde o descobrimento do Brasil, o trânsito é parte integrante da vida das pessoas, considerando que o próprio descobrimento é resultado do trânsito marítimo constante da época. Naquela época, a estrutura demográfica do País era bem diferente da atualidade. A população concentrava-se nas áreas rurais e as cidades não eram planejadas para o uso do automóvel. As grandes rodovias só começaram a ser construídas no século XX.


Os centros urbanos não eram congestionados. Não havia ali, circulação de automóveis, apenas de pedestres e veículos de tração humana e animal, cujas velocidades eram reduzidas, no máximo 30 km/h.
 

A partir da década de 30, a urbanização brasileira inicia-se. Mas foi na década de 50 com o incremento da industrialização que o Brasil passou de rural a urbano e a produção de automóveis se intensificou. A maioria das cidades teve de ser adequada para o advento do automóvel.


O processo urbano no Brasil gerou a segregação espacial. As classes favorecidas lidam no trânsito em automóveis particulares. As classes desfavorecidas enfrentam os problemas de locomoção utilizando transportes coletivos lotados e desconfortáveis. O sistema viário não conta com calçadas adequadas e seguras para a circulação de pedestres nem ciclovias para transitarem os ciclistas. Motociclistas vivem seus dramas de sobrevivência entre automóveis velozes.
 

 A partir dos anos 50 o automóvel ganhou importância nas relações sociais passando a representar símbolos sociais como status, liberdade, poder, utilidade e conforto. Na medida em que as cidades crescem e se modernizam, atraem as indústrias e concentram nas regiões centrais os empregos e os bens de uso e consumo. O sistema de trânsito é influenciado pela localização das residências, dos empregos, dos serviços de saúde, das escolas, do lazer. Cada um desses elementos contribui de certa forma para a organização dos modos de circulação e dos padrões de deslocamentos.

 
O crescimento das cidades provocou a superlotação das ruas em razão do aumento da frota de veículos. A necessidade de locomoção rápida exigia um maior número de automóveis transitando pelas ruas. Hoje circulam pelas ruas brasileiras aproximadamente 180 milhões de pessoas e mais de 50 milhões de veículos. O sistema de trânsito é o que mais mata no mundo. No Brasil não é diferente.

 
Desde a década de 40 vários países no mundo têm buscado aprimorar seus mecanismos de segurança em relação ao trânsito. Na elaboração de leis, na fiscalização, na vigilância e no controle. Países como Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Japão têm um rígido controle sobre as regras de trânsito e apresentam baixos índices de mortalidade (abaixo de 10 mortes/100mil hab/ano).

 
No Brasil, somente na década de 90 as leis de trânsito e a fiscalização ficaram mais consistentes, reduzindo pela metade os índices de mortalidade (25 mortes/100 mil hab/ano). Ainda é um número alto se comparado aos países do primeiro mundo. O índice de mortalidade no trânsito no Brasil é semelhante ao de países de terceiro mundo (El Salvador, Vietnam, Países da África, Índia, China) que supera a média de 30 mortes/100 mil hab/ano.

 
Atualmente, tanto o trânsito da cidade quanto o trânsito das rodovias apresentam características de violência. As cidades apresentam problemas complexos e multivariados como congestionamentos, transportes coletivos lotados, pedestres preocupados, automóveis velozes e motoristas apressados, ausência de calçadas e estacionamentos.

Muitos fatores influenciam para que o trânsito se torne cada vez mais violento. O crescimento desordenado das cidades, a periferização das metrópoles, a decadência da malha viária e da sinalização, a má formação dos condutores e pedestres e a incipiência da educação para o trânsito são alguns exemplos.

 
O trânsito é um retrato perfeito de como anda a sociedade brasileira. Reflete a violência urbana, o desprezo pelas leis, o desrespeito para com o próximo e o egoísmo. No Brasil existe a aceitação social do hábito de beber. O uso da bebida alcoólica faz com que o hábito de beber eventualmente se torne cada vez mais freqüente. Beber confere à pessoa status associado à idéia de autonomia e de liberdade. A mistura entre álcool e direção é explosiva e coloca em risco a vida de quem dirige e de quem transita pelas ruas.  É uma das piores práticas observadas no trânsito brasileiro. Comumente, exerce-se o hábito de beber fora de casa, nos bares e restaurantes, ou seja, na rua. À volta para casa requer passar pelas ruas. As ruas representam o espaço para as pessoas circularem de carro ou a pé. Nesse aspecto, a rua é o espaço para beber e o espaço para dirigir. Então, é na rua que acontece o encontro indesejado: o acidente de trânsito.


Somente um longo processo de socialização e de conscientização poderá reverter esse quadro. Por longos anos teremos de conviver com as tragédias provocadas pela mistura álcool e direção.

 

A solução é a educação para o trânsito.

Sabemos que o álcool afeta o sistema nervoso central, mas o efeito do álcool é mais intenso no cérebro, tornando mais lento o raciocínio, ativando o sistema emocional. Com mais álcool no corpo o chamado sistema límbico é ativado surgindo formas exageradas de emoção, raiva, agressividade e perda de memória. São fatores que potencializam  e comprometem a segurança no trânsito. Dificilmente, quem bebe, bebe uma cervejinha. Bebe duas, três. Os limites aceitáveis para embriagues ao volante é o que consta da lei. 2 dg/l de sangue ou 0,1 ml/l ar expelido. A partir de 6 dg/l de sangue e 0,3 ml/l ar expelido passa a ser crime. É bem possível que uma cerveja atinja esses patamares.


Em 19 de junho de 2008 o Presidente da República sancionou a  Lei 11.705, que proíbe  o consumo de bebida alcoólica superior à quantidade de 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido pelos pulmões no exame de bafômetro, ou 2 dg de álcool por litro de sangue por condutores de veículos, modificando assim, o Código de Trânsito Brasileiro. O condutor flagrado conduzindo veículos em estado de embriagues se sujeita, a partir de então, à pena de multa, suspensão do direito de dirigir por 1 ano e até pena de detenção se a concentração de no organismo for muito alta. A aplicação dessa lei, no Brasil, é uma tentativa de proibir o uso de bebidas alcoólicas na condução de veículos e a sua comercialização nas rodovias federais em toda a sua extensão. No último caso, porém, a norma acabou por se aplicar apenas nas áreas rurais das rodovias.


De início houve uma intensa fiscalização com acompanhamento da mídia e, alguns meses depois a fiscalização foi atenuada. A adoção da nova lei endurece as consequências contra aqueles que costumam dirigir sob efeito de álcool.

 
A tendência é de que haja uma estabilização nessa taxa de redução de acidentes com feridos e mortos. Essa estabilidade decorrerá da atenuação na fiscalização, que atua muito pautada pela mídia e essa pauta com o tempo tende a se exaurir nas redações. As autoridades que se empenharam num primeiro momento em dar visibilidade às ações decorrentes da aplicação da nova lei, fatalmente, se empenharão em outras agendas e as pessoas, em escala menor, por força do hábito, continuarão bebendo e dirigindo. Além disso, centralizar esforços apenas no combate do uso de álcool quando estiver dirigindo não seria suficiente para tirar a violência no trânsito das agendas da segurança e da saúde pública.
 

Muito tem de ser feito para inibir o excesso de velocidade, as ultrapassagens proibidas, o cansaço e a sonolência na direção dos veículos, a imprudência e irresponsabilidades dos motociclistas, a desatenção de pedestres e ciclistas.

O trânsito é planejado para possibilitar a circulação de pessoas e de veículos, para garantir deslocamentos, para assegurar liberdade de movimento e de acesso aos bens e serviços indispensáveis à sobrevivência humana. Todos, nós, devemos estar conscientes do que representa o trânsito nas nossas vidas e tê-lo como um espaço de interações, de vivências e convivências.

 “O século XXI traz para as autoridades e para a sociedade o desafio de enfrentar a violência no trânsito cada vez mais crescente”, o presente trabalho que você está recebendo é para que tenhas o reconhecimento real sobre como agir em situações adversas daquela com a qual não está acostumado. Servirá como uma base para o desenvolvimento dos seus conhecimentos frente às questões de como não envolver-se em acidentes de trânsito, dando-lhe condições de interpretação das situações adversas que acontecem com todos os usuários dos espaços públicos.
 

O trânsito seguro é um direito de todos e uma obrigação do Estado e com o passar dos tempos, o trânsito está cada vez mais complicado nas suas mais variadas etapas. O automóvel venho para contribuir para o desenvolvimento das cidades, as quais foram crescendo na medida em que os automóveis foram se aperfeiçoando, a tecnologia está aí para que se consiga uma maior segurança dos veículos, das pessoas e de todos os usuários dos espaços públicos.

 
O nosso modal viário está comprometido com o sistema rodoviário na medida em que o Estado prioriza esse sistema, o qual detém cerca de 90% (noventa por cento) do mercado de transporte de passageiros e 60% (sessenta por cento) do transporte de mercadorias, fatos que impulsionam o movimento pesado de tráfego nas cidades e nas estradas, ocasionando o caos que nos encontramos nos dias de hoje, ocasionando conflitos nas relações de tráfego, gerando muitos desperdícios de valores monetários e de vidas.

 
Desde a invenção do primeiro veículo no mundo, lá pelos anos de 1744, os veículos tiveram uma transformação imensa, foram e estão sendo desenvolvidos muitos equipamentos que prezam pela segurança e em consequência nos dão a aparência de que somos indestrutíveis dentro dos carros, ocasionando uma interpretação errônea do uso do mesmo, que em muitos casos é utilizado de forma irracional, trazendo prejuízos ao meio ambiente e para as demais pessoas, não sendo usado somente como instrumento de locomoção.

 
Portanto, o presente trabalho tem como objetivo de informar sobre os procedimentos a serem adotados para uma condução segura para todos, condutores e pedestres, o que seguramente, se for bem estudado e colocado em prática, será um diferencial para que se tenha uma nova cultura automobilística, buscando agregar conhecimentos e valores na mudança de comportamentos no trânsito, tudo em benefício do resgate de vidas, onde o seu comportamento no trânsito demonstrará o grau de civilidade e de educação adquirido e desenvolvido frente ao trânsito seguro para todos os participantes do espaço público. 

  

Porto Alegre, abril de 2014.

 
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Valdir Salaberry Junior
Instrutor e Examinador de Trânsito

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