TRÂNSITO E SOCIEDADE
Desde o
descobrimento do Brasil, o trânsito é parte integrante da vida das pessoas,
considerando que o próprio descobrimento é resultado do trânsito marítimo
constante da época. Naquela época, a estrutura demográfica do País era bem
diferente da atualidade. A população concentrava-se nas áreas rurais e as
cidades não eram planejadas para o uso do automóvel. As grandes rodovias só
começaram a ser construídas no século XX.
Os centros
urbanos não eram congestionados. Não havia ali, circulação de automóveis,
apenas de pedestres e veículos de tração humana e animal, cujas velocidades
eram reduzidas, no máximo 30
km/h .
A partir da
década de 30, a
urbanização brasileira inicia-se. Mas foi na década de 50 com o incremento da
industrialização que o Brasil passou de rural a urbano e a produção de
automóveis se intensificou. A maioria das cidades teve de ser adequada para o
advento do automóvel.
O processo
urbano no Brasil gerou a segregação espacial. As classes favorecidas lidam no
trânsito em automóveis particulares. As classes desfavorecidas enfrentam os
problemas de locomoção utilizando transportes coletivos lotados e
desconfortáveis. O sistema viário não conta com calçadas adequadas e seguras
para a circulação de pedestres nem ciclovias para transitarem os ciclistas.
Motociclistas vivem seus dramas de sobrevivência entre automóveis velozes.
A partir dos anos 50 o automóvel ganhou
importância nas relações sociais passando a representar símbolos sociais como
status, liberdade, poder, utilidade e conforto. Na medida em que as cidades
crescem e se modernizam, atraem as indústrias e concentram nas regiões centrais
os empregos e os bens de uso e consumo. O sistema de trânsito é influenciado
pela localização das residências, dos empregos, dos serviços de saúde, das
escolas, do lazer. Cada um desses elementos contribui de certa forma para a
organização dos modos de circulação e dos padrões de deslocamentos.
O crescimento
das cidades provocou a superlotação das ruas em razão do aumento da frota de
veículos. A necessidade de locomoção rápida exigia um maior número de
automóveis transitando pelas ruas. Hoje circulam pelas ruas brasileiras
aproximadamente 180 milhões de pessoas e mais de 50 milhões de veículos. O
sistema de trânsito é o que mais mata no mundo. No Brasil não é diferente.
Desde a década
de 40 vários países no mundo têm buscado aprimorar seus mecanismos de segurança
em relação ao trânsito. Na elaboração de leis, na fiscalização, na vigilância e
no controle. Países como Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Japão têm um
rígido controle sobre as regras de trânsito e apresentam baixos índices de
mortalidade (abaixo de 10 mortes/100mil hab/ano).
No Brasil,
somente na década de 90 as leis de trânsito e a fiscalização ficaram mais
consistentes, reduzindo pela metade os índices de mortalidade (25 mortes/100
mil hab/ano). Ainda é um número alto se comparado aos países do primeiro mundo.
O índice de mortalidade no trânsito no Brasil é semelhante ao de países de
terceiro mundo (El Salvador, Vietnam, Países da África, Índia, China) que
supera a média de 30 mortes/100 mil hab/ano.
Atualmente,
tanto o trânsito da cidade quanto o trânsito das rodovias apresentam
características de violência. As cidades apresentam problemas complexos e
multivariados como congestionamentos, transportes coletivos lotados, pedestres
preocupados, automóveis velozes e motoristas apressados, ausência de calçadas e
estacionamentos.
Muitos fatores
influenciam para que o trânsito se torne cada vez mais violento. O crescimento
desordenado das cidades, a periferização das metrópoles, a decadência da malha
viária e da sinalização, a má formação dos condutores e pedestres e a
incipiência da educação para o trânsito são alguns exemplos.
O trânsito é
um retrato perfeito de como anda a sociedade brasileira. Reflete a violência
urbana, o desprezo pelas leis, o desrespeito para com o próximo e o egoísmo. No
Brasil existe a aceitação social do hábito de beber. O uso da bebida alcoólica
faz com que o hábito de beber eventualmente se torne cada vez mais freqüente.
Beber confere à pessoa status associado à idéia de autonomia e de liberdade. A
mistura entre álcool e direção é explosiva e coloca em risco a vida de quem
dirige e de quem transita pelas ruas. É
uma das piores práticas observadas no trânsito brasileiro. Comumente, exerce-se
o hábito de beber fora de casa, nos bares e restaurantes, ou seja, na rua. À
volta para casa requer passar pelas ruas. As ruas representam o espaço para as
pessoas circularem de carro ou a pé. Nesse aspecto, a rua é o espaço para beber
e o espaço para dirigir. Então, é na rua que acontece o encontro indesejado: o
acidente de trânsito.
Somente um
longo processo de socialização e de conscientização poderá reverter esse
quadro. Por longos anos teremos de conviver com as tragédias provocadas pela
mistura álcool e direção.
A solução é a
educação para o trânsito.
Sabemos que o
álcool afeta o sistema nervoso central, mas o efeito do álcool é mais intenso no
cérebro, tornando mais lento o raciocínio, ativando o sistema emocional. Com
mais álcool no corpo o chamado sistema límbico é ativado surgindo formas
exageradas de emoção, raiva, agressividade e perda de memória. São fatores que
potencializam e comprometem a segurança
no trânsito. Dificilmente, quem bebe, bebe uma cervejinha. Bebe duas, três. Os
limites aceitáveis para embriagues ao
volante é o que consta da lei. 2
dg/l de sangue ou 0,1 ml/l ar
expelido. A partir de 6 dg/l de
sangue e 0,3 ml/l ar expelido
passa a ser crime. É bem possível
que uma cerveja atinja esses patamares.
Em 19 de junho
de 2008 o Presidente da República sancionou a Lei 11.705, que proíbe
o consumo de bebida alcoólica superior à quantidade de 0,1 mg de álcool por
litro de ar expelido pelos pulmões no exame de bafômetro, ou 2 dg de álcool por
litro de sangue por condutores de veículos, modificando assim, o Código de
Trânsito Brasileiro. O condutor flagrado conduzindo veículos em estado de
embriagues se sujeita, a partir de então, à pena de multa, suspensão do direito
de dirigir por 1 ano e até pena de detenção se a concentração de no organismo
for muito alta. A aplicação dessa lei, no Brasil, é uma tentativa de proibir o
uso de bebidas alcoólicas na condução de veículos e a sua comercialização nas
rodovias federais em toda a sua extensão. No último caso, porém, a norma acabou
por se aplicar apenas nas áreas rurais das rodovias.
De início
houve uma intensa fiscalização com acompanhamento da mídia e, alguns meses
depois a fiscalização foi atenuada. A adoção da nova lei endurece as
consequências contra aqueles que costumam dirigir sob efeito de álcool.
A tendência é
de que haja uma estabilização nessa taxa de redução de acidentes com feridos e
mortos. Essa estabilidade decorrerá da atenuação na fiscalização, que atua
muito pautada pela mídia e essa pauta com o tempo tende a se exaurir nas
redações. As autoridades que se empenharam num primeiro momento em dar
visibilidade às ações decorrentes da aplicação da nova lei, fatalmente, se
empenharão em outras agendas e as pessoas, em escala menor, por força do
hábito, continuarão bebendo e dirigindo. Além disso, centralizar esforços
apenas no combate do uso de álcool quando estiver dirigindo não seria suficiente
para tirar a violência no trânsito das agendas da segurança e da saúde pública.
Muito tem de
ser feito para inibir o excesso de velocidade, as ultrapassagens proibidas, o
cansaço e a sonolência na direção dos veículos, a imprudência e irresponsabilidades
dos motociclistas, a desatenção de pedestres e ciclistas.
O trânsito é planejado para possibilitar a circulação de pessoas e de veículos, para garantir deslocamentos, para assegurar liberdade de movimento e de acesso aos bens e serviços indispensáveis à sobrevivência humana. Todos, nós, devemos estar conscientes do que representa o trânsito nas nossas vidas e tê-lo como um espaço de interações, de vivências e convivências.
O trânsito seguro é um direito de todos e uma obrigação do Estado e com
o passar dos tempos, o trânsito está cada vez mais complicado nas suas mais
variadas etapas. O automóvel venho para contribuir para o desenvolvimento das
cidades, as quais foram crescendo na medida em que os automóveis foram se
aperfeiçoando, a tecnologia está aí para que se consiga uma maior segurança dos
veículos, das pessoas e de todos os usuários dos espaços públicos.
O nosso modal viário está comprometido com o sistema rodoviário na
medida em que o Estado prioriza esse sistema, o qual detém cerca de 90%
(noventa por cento) do mercado de transporte de passageiros e 60% (sessenta por
cento) do transporte de mercadorias, fatos que impulsionam o movimento pesado
de tráfego nas cidades e nas estradas, ocasionando o caos que nos encontramos
nos dias de hoje, ocasionando conflitos nas relações de tráfego, gerando muitos
desperdícios de valores monetários e de vidas.
Desde a invenção do primeiro veículo no mundo, lá pelos anos de 1744, os
veículos tiveram uma transformação imensa, foram e estão sendo desenvolvidos
muitos equipamentos que prezam pela segurança e em consequência nos dão a
aparência de que somos indestrutíveis dentro dos carros, ocasionando uma
interpretação errônea do uso do mesmo, que em muitos casos é utilizado de forma
irracional, trazendo prejuízos ao meio ambiente e para as demais pessoas, não
sendo usado somente como instrumento de locomoção.
Portanto, o presente trabalho tem como objetivo de informar sobre os
procedimentos a serem adotados para uma condução segura para todos, condutores
e pedestres, o que seguramente, se for bem estudado e colocado em prática, será
um diferencial para que se tenha uma nova cultura automobilística, buscando
agregar conhecimentos e valores na mudança de comportamentos no trânsito, tudo
em benefício do resgate de vidas, onde o seu comportamento no trânsito
demonstrará o grau de civilidade e de educação adquirido e desenvolvido frente
ao trânsito seguro para todos os participantes do espaço público.
Porto Alegre, abril de 2014.
Valdir Salaberry Junior
Instrutor e Examinador
de Trânsito

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